Entrevista ao site Saúde Aqui

SaudeAqui.com: Todos costumam relacionar a sexualidade com o ato sexual ou coisas que tenham a ver com o sexo. Isso é certo? O que, exatamente é a sexualidade?

Karina Simões: A Sexualidade é um termo amplamente abrangente que engloba inúmeros fatores e dificilmente se encaixa em uma definição única e absoluta. Nos remete a um universo onde tudo é relativo, pessoal e muitas vezes paradoxal.Muitas pessoas, pela má educação sexual que recebemos, confunde o conceito de sexualidade com o do sexo. Podemos dizer também que a sexualidade é uma característica geral experimentada por todo o ser humano e não necessita de relação exacerbada com o sexo, uma vez que se define pela busca de prazeres, sendo estes prazeres não apenas os explicitamente sexuais.Entender a diferença entre sexo de sexualidade é importante porque enquanto o termo sexo se encera nas bases biológicas, o termo sexualidade, possui uma abrangência muito maior, levando a construção de papéis sexuais esperados a cada membro da sociedade (homem / mulher) dentro de um dado grupo social.

SaudeAqui.com: A sexualidade já é despertada na criança?

Karina Simões: Sim. Às vezes de forma errada e precoce, quando se confunde a sexualidade com o sexo em si. Muito típico da nossa sociedade machista e devido a nossa cultura.

SaudeAqui.com: O que são os distúrbios da sexualidade? Quais as causas, os tipos e como as pessoas agem quando os têm?

Karina Simões: Chamamos de Transtornos da Sexualidade. Dentro dos Transtornos da Sexualidade encontramos as Disfunções Sexuais, as Parafilias e os Transtornos de Identidade de Gênero. As Disfunções Sexuais incluem Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo, Transtorno de Aversão Sexual, Transtornos da Excitação Sexual Feminina, Transtorno Erétil Masculino, Transtornos Orgásmicos (isto é, Transtorno Orgásmico Feminino, Transtorno Orgásmico Masculino, Ejaculação Precoce), Transtornos de Dor Sexual (isto é, Dispareunia, Vaginismo), Disfunção Sexual Devido a uma Condição Médica Geral, Disfunção Sexual Induzida por Substância e Disfunção Sexual Sem Outra Especificação.Causas: é multicausal. Fatores Orgânicos - má formações genéticas e congênitas, doenças nos órgãos genitais, doenças sistêmicas, algumas cirurgias, irradiação, medicamentos. Agentes tóxicos - e não-orgânicos: socioculturais, emocionais, experiências traumáticas, fatores ocasionais.As pessoas se apresentam bem ansiosas e muitas vezes depressivas, devido a um problema instalado há tempo, causando sofrimento intenso.

SaudeAqui.com: Quais são os problemas mais freqüentes com relação à sexualidade que seus pacientes apresentam?

Karina Simões: Com relação as disfunções sexuais, as mais comuns em consultório são: DE - Disfunção Erétil, seguido de Ejaculação Precoce, nos homens. E nas mulheres, o TDH - Transtorno de Desejo Hipoativo, seguido da Anorgasmia – Transtorno Orgásmico Feminino.

SaudeAqui.com: Você atende mais mulheres ou homens com esse tipo de problema? Por que isso acontece?

Karina Simões: No início, a procura era mais de homens, e isso se dava devido ao fator cultural. Uma sociedade onde não estimulava nem estimula (apesar de estarmos modificando tal realidade), a busca da mulher por sentir prazer. Onde o sexo era vinculado a procriação, o prazer era apenas dos homens. Atualmente, tanto aqui na Paraíba, como lá em São Paulo, a demanda está aumentando com relação às mulheres. Isso é muito bom. Fico feliz em vê-las buscando ajuda pra melhorar o desempenho e tratar situações desconfortáveis na relação sexual.

SaudeAqui.com: O que é feito para tratar esses problemas? Quando o paciente deve se submeter a uma terapia?

Karina Simões: O tratamento é feito com uma equipe multidisciplinar. Geralmente recebo os pacientes vindo de Urologistas ou Ginecologistas. Assim, será feito uma anamnese¹ para checar cada detalhe da problemática do paciente. Descartando o lado orgânico, vamos tratar o lado psíquico, que é responsável pela maioria das causas das Disfunções Sexuais. É fundamental fazer uma reeducação sexual em cada paciente que chega, pois a má educação e a falta de informação sexual faz com que os sintomas se agravem.Se o paciente está sentindo desconforto na relação sexual, ou a relação sexual acarreta prejuízos em alguma área de vida dele, deve procurar ajuda de um profissional qualificado e que trabalhe com o foco na sexualidade.

SaudeAqui.com: Uma desilusão amorosa pode causar um problema tão grave como a depressão? Como ela se desenvolve nesses casos?

Karina Simões: Claro que pode. Irá depender da estrutura emocional de cada indivíduo. A depressão, a priori, após uma desilusão amorosa, seria apenas reativa à perda, ao luto do fim da relação. Se persistir, poderá gerar uma depressão crônica, onde precisamos fazer um encaminhamento pra um psiquiatra e trabalhar em conjunto com tal profissional, onde será inserido tratamento medicamentoso em conjunto com a Psicoterapia Cognitivo Comportamental.

SaudeAqui.com: Muitas pessoas só procuram ajuda de um psicólogo quando já estão com quadros clínicos avançados, como em outras especialidades se procura um médico quando se já está doente. Quando um paciente realmente deve procurar ajuda?

Karina Simões: De fato, devido a nossa cultura, só procura-se o psicólogo quando o “problema” já está instalado e enraizado. Se detectado no início, teremos maiores chances de reestruturar o paciente e ter sucesso no processo psicoterápico.Fazer psicoterapia será sempre uma maneira do SER humano evoluir!

¹Anamnese: (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória). É uma entrevista que busca relembrar todos os fatos que se relacionam com a doença e à pessoa doente.

A Dra. Karina Simões é especializada em Sexualidade Humana pela USP, faz parte do Projeto ProSex do Hospital das Clínicas de São Paulo. Atua em consultório próprio e hospitais de João Pessoa e São Paulo.

ENTREVISTA - REPORTAGEM - 30/08/2009

Terceira idade // Amor após os 60 anos

Pessoas que chegaram à terceira idade sentiram o gosto da paquera e do começo de relação a dois.
(Naíza Alves // Especial para O Norte)

Sentir um frio na barriga, sorrir sem motivo, dar e receber carinhos. Todo mundo concorda que namorar é bom demais. É uma infinidade de sensações que tomam nosso corpo e nos deixam mais felizes e até mais bonitos. Esse prazer de viver não é uma exclusividade dos jovens. Muitos idosos estão descobrindo que envelhecer não significa ficar parado em casa, cuidando dos netos e preocupados com a saúde. Por isso, pessoas que chegam a terceira idade também namoram.
A paixão tem mais a ver com a história de cada um, seus sentimentos, sua cultura e nada disso é determinado por regras, convenções sociais e muito menos pela idade. "Nossa sociedade rotula o perfil da terceira idade como incapa-z de exercer sua sexualidade plena, ainda que, independentemente disso, o desejo sexual se mantenha presente em todas as fases da vida", afirmou a psicóloga Karinna Simões, especialista em sexualidade humana. Ela explicou que os idosos tem que saber encarar o envelhecimento com maturidade e entender que apesar das mudanças físicas, a conquista da sexualidade pode ser bastante satisfatória. Francisco e Raquel Gonzalez, de 66 e 65 anos, respectivamente, e juntos há 41 anos, não são especialistas na teoria, mas sabem muito bem o que significa isso na prática. "Quando se tem 20 anos, em termos sexuais, é muito mais constante. Com 60, um pouco menos, mas sempre existe", disse Francisco. "A gente gosta muito de ir a bailes. Quando você volta é a mesma coisa. Como se os jovens fossem a uma balada, e quando saem, vão fazer alguma coisa, porque estão se conhecendo. Então é igual. Não perdeu aquele interesse", confessou o aposentado.Francisco e Raquel se conhecem há muito tempo e como não têm filhos, aproveitam para estar sempre juntos. "Somos muito companheiros um do outro, participamos muito da vida do outro. A gente procura tudo o que gosta de fazer e sai muito", diz Raquel. A psicóloga recomendou isso mesmo. "A atenção e a companhia são símbolos fundamentais no namoro. É nessa fase que a comunicação profunda e o cuidado de um para com o outro tem tanto valor quanto as relações íntimas", explicou Karinna. Mas a sorte de um grande amor não chega só na juventude. Conceição de Araújo só conheceu Seu Ferreira Lima aos 64 anos. Antes disso ela se ocupava apenas em cuidar dos irmãos e achava que não tinha tempo para namorar sério ou casar. Quando começou a participar de grupos da Melhor Idade, parecia já muito tarde para viver grandes paixões. "Foi numa festa da associação de idosos que ele me chamou para dançar. Eu disse: 'Eu não danço com homem! Meu pai nunca deixou'", lembrou Conceição. Pois no mesmo ano já estavam casados, dançando e se divertindo por aí. A educação rígida e zelosa do pai de Conceição, hoje com 78 anos e viúva de Seu Ferreira, não impediu que ela descobrisse o amor. "Muitas mulheres nessa fase da vida começam a pensar que não precisam mais de sexo ou de namorar, por exemplo. Isso ocorre devido a uma má educação sexual da época, com pouca informação", afirma a psicóloga. Os tabus e preconceitos devem ser ultrapassados mesmo porque a melhor parte de namorar na terceira idade é que faz muito bem para a saúde e para a vivência de cada uma das pessoas que se permitem. "Eu me senti mais segura", contou Conceição. Karinna Simões conta o que acontece. "Namorar diminui o nível de stress e até rejuvenesce. O sentimento de prazer tem um potencial transformador dentro do ser humano. O idoso que se permite viver essa fase, tem menos chance de desenvolver doenças, pois a sensação de bem estar perdura, deixando-o com um melhor potencial na sua imunidade", explicou.