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A lição fantástica ou “extraordinária”

Deparar-se primeiramente com a angústia de uma família, mas primordialmente com a angústia de uma mãe diante de um sofrimento de seu filho, é algo tão comum e frequente em meu “laboratório” clínico, como costumo chamar, ou seja, em meu consultório. Já atendi a inúmeras mães com as culpas, angústias e renúncias que a personagem da Julia Roberts vive com maestria. Dava pra sentir o aperto no peito e a respiração curta ao ver as cenas onde ela se deparava com o filho em sofrimento pelo bullying vivido, ou pelas conquistas diárias que o jovem Auggie vencia e vivenciava. O filme mexe com nossas emoções e desperta nos espectadores um enorme aprendizado na forma de encarar a realidade e de se comportar em sociedade. Ensina-nos, com simplicidade, a beleza e a necessidade urgente de aprendermos a conviver num mundo plural, em que o respeito e a tolerância se fazem necessários. É, pois, uma verdadeira lição da vida moderna.
A deficiência de nascença do jovem Auggie pode ser entendida como qualquer outro tipo de exclusão hoje em dia vista em nossa sociedade. Mas o mais relevante é a possibilidade da compreensão da leitura que o filme nos dá, da imensa importância do núcleo familiar acolhedor, uma vez que estão comprometidos uns com os outros. Esse fato ressalta o valor familiar na atual sociedade. Lamentavelmente, o elo familiar se encontra, em muitos lares, com rupturas diversas.
A lição fantástica ou “extraordinária” que tiramos é também que os sentimentos ou afetos gerenciados dentro de cada um de nós têm uma repercussão própria. Assim, levarmos em consideração a dor do outro de modo a acolhê-lo e compreendê-lo é sempre o melhor caminho a fim de que afetos positivos possam ser construídos numa geração para que essa se torne realmente extraordinária. Pois, como diz uma das falas do filme, a qual parece ser um clichê, mas a sua prática é de extrema premência: “Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil”.

Por: Karina Simões Moura de Moura

Texto disponível também em minha coluna UOL

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A interferência das redes sociais nos relacionamentos

Tenho percebido na minha prática clínica o fenômeno da interferência das redes sociais na vida das pessoas e, mais ainda,  nos relacionamentos afetivos. Se por um lado as ferramentas tecnológicas são responsáveis pela união amorosa de muitos, por outro lado, não é menos verdade que elas também vêm se tornando causa de vários conflitos nos relacionamentos sociais e conjugais.
A minha escuta na clínica evidencia que as redes sociais rompem contratos preexistentes entre os casais, ou seja, as regras são substituídas por novas práticas e isto desencadeia um desequilíbrio na relação. Casais que não tinham segredos passam a ter, e um "novo mundo" (o virtual) passa a existir entre eles. É como se um abismo fosse sendo construído no meio dessa relação, e havendo, cada vez mais, uma distância entre eles. As redes sociais são como vitrines a aguçar e estimular a fantasia das pessoas. Muitas vezes, escuto no consultório que as "redes sociais são como uma espécie de cardápio de pessoas", onde se pode estar a escolher o que visualmente vem a calhar ao agrado dos olhos de cada um. E isso desperta um interesse no outro, a ponto de poder culminar num suposto rompimento da relação.
Não se pretende aqui fazer qualquer juízo crítico positivo ou negativo acerca do uso das redes sociais, pois, como tudo, o mau uso depende do sujeito e não do objeto em questão. Entretanto lanço a reflexão de que talvez a dinâmica de as pessoas terem a maturidade de conversar e dialogar mais sobre o permitido e o não permito por cada um seja um caminho a prevenir tais desconfortos no futuro.
Ter ou não a senha de acesso às redes de relacionamento do cônjuge é assunto a ser definido pela realidade vivenciada de cada casal. Não há regras da felicidade para isso. Não existem receitas do certo e do errado nas etiquetas universais de relacionamento. Existem sim regras e etiquetas de cada casal, ou seja, o que serve para um pode não servir para o outro. Mas se faz necessário e saudável tentar estabelecer algumas regras afetivas internas e confortáveis para cada um. Estabelecer diálogos nas redes sociais, "curtir" fotos, manter uma conversa no chat, etc., têm sempre uma realidade particular de cada casal. Não será surpresa acontecer que, diante da variedade de pessoas que usam a rede, exista a possibilidade de alguma "investida" ou demonstração de interesse de terceiros diferentes da relação, possibilitando assim que possa entrar alguém a mais nessa relação. Esta atenção, portanto, deve ser observada.  Assim, essas "curtidas" em massa podem soar como um aceno de quem quer demonstrar algum interesse. Trata-se, pois, de uma nova linguagem e uma nova forma de se comunicar que vêm se estabelecendo nas relações sociais e afetivas. Aliás, isto tem sido objeto de repetidas escutas no meu consultório.
A tecnologia e suas inovações têm mexido em todas as áreas de nossas vidas. O aspecto afetivo das pessoas, por sua vez, não fica de fora; ao contrário, tem um destaque especial merecendo um olhar mais profundo sobre esse tema. Temos que refletir cada vez mais até onde estamos permitindo que haja interferências externas presenciais ou virtuais nas nossas relações e sabermos blindar numa visão ampliada de compreensão do que vem a ser a permissão dessa interferência. Fica a reflexão para todos e até o próximo texto!

Por: Karina Simões Moura de Moura
Instagram: @karinamourademoura

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A "onipresença" da mãe

Ao ouvir uma frase de uma mãe, fiquei pensativa: "depois que a gente é mãe nunca mais consegue dormir". Ela se referia a ter um sono e desligar-se completamente nos braços de Deus. Falava que dormia, mas tinha aquele sono que a fazia ligada e com o sentido voltado em seu filho. Impunha-se uma vigilância, pois a qualquer tempo ele poderia acordar e ela deveria estar de prontidão para assisti-lo, caso isso viesse a acontecer a qualquer hora da madrugada.

A ansiedade é esse constante estado de vigilância que conecta a pessoa a uma situação de alerta que consome a energia e impede um descanso necessário à saúde. Mas é muito curioso o quanto não se fala dessa situação que causa stress. As mães não se sentem à vontade para falarem dessa realidade que as consome. Talvez temam as incompreensões e sejam julgadas como desprovidas de alma ou pouco amor aos seus filhos. O fato é que muitos pais e mães precisam saber é que a dificuldade de muitos relacionamentos tem como gênesis a imposição sobre-humana que tantas mães (e muitos pais) se submetem no descuido do cuidarem-se para poder cuidar. 

Imagina o que gera de alteração de humor passar anos sem ter direito a uma noite de sono sem a preocupação de estar vigiando seu filho? Imagina o funcionamento psíquico de quem está sempre em estado de alerta? Imagina como é difícil depois de tanto tempo vivendo assim (e disso se fazer dependente) ver os filhos crescerem e, em sua autonomia, não mais aceitarem esse cuidado, que para eles passa a ter o nome de "controle". Adolescentes odeiam ser "controlados". Tantas mães são uma fábrica de ansiedade aprendida na vida.

É preciso ter muito cuidado com a dinâmica do cuidar. Santo Agostinho dizia que ninguém tropeça em montanha, mas em pequenas pedras. Estamos acostumados a pensar que muitos transtornos vêm de situações traumáticas, mas um outro caminho bem possível para o desenvolvimento de enfermidades é o estilo de vida que nos impomos no cotidiano e nas coisas que parecem simples.

Mães e pais (que cuidam) precisam descansar. Uma boa noite de sono pode render frutos de amor e tolerância bem maiores que uma noite de vigília. Tornar o filho autônomo para enfrentarem, em seus próprios quartos, a travessia de uma noite precisa ser o grande desafio dos pais.

Mães precisam dormir para continuarem sonhando com uma vida plena de amor e de cuidado... sem culpas!

Por: Karina Simões Moura de Moura
@karinamourademoura

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Suicídio de jovens: a culpa é dos pais? 

Uma polêmica tem tomado conta das redes sociais, precisamente quanto à questão do suicídio envolvendo crianças e adolescentes. A mídia tem responsabilizado o jogo "baleia azul" e o seriado da Netflix intitulado "Thirteen Reasons Why" pelo aumento de suicídio envolvendo jovens. 
 
Com o surgimento desse fenômeno, opiniões divergentes apareceram acerca da publicidade do suicídio na mídia. Os defensores falam da importância de alertar pais e adolescentes para que se evite o aumento desse quadro desolador na estatística. No entanto, por outro lado, cientistas, a própria ONU e a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) têm alertado para o perigo de que a divulgação pode sim gerar o efeito de estímulo à prática do suicídio. 
 
Foi possível se ver, igualmente, várias postagens em redes sociais responsabilizando os pais diante do fenômeno do aumento de suicídio. Afirma-se que os pais têm sido negligentes nos cuidados e acompanhamento dos seus filhos hoje em dia. Consequentemente, movido por esse desamparo afetivo, o adolescente desencadeou o uso excessivo da internet, o qual tem gerado vários transtornos psíquicos.  Será mesmo que encontramos o grande vilão responsável por tamanho adoecimento emocional familiar? Gostaria de fazer um contraponto ou um questionamento sobre o assunto. Esta geração, notadamente quanto aos pais, tem desempenhado um papel que talvez em gerações anteriores não se observava.  É difícil imaginar que há duas ou três gerações passadas pudesse se ver facilmente um pai preparando uma mamadeira, dando banhos em seus filhos ou mesmo trocando fraldas. Via-se então nas gerações passadas o pai participativo na vida emocional desses filhos e eram pais extremamente afetuosos? Pais que dividiam tarefas com as mães? Acho mesmo que precisamos refletir e julgar menos esses pais. Tal fato, hoje, não é tão incomum. Questiono as afirmações de que os pais negam mais afeto aos filhos do que em gerações anteriores. Hoje percebemos muito mais a presença desses pais tanto na participação de cuidados aos filhos quanto na presença nas atividades escolares, por exemplo. Percebo na clínica a maior preocupação desses pais com a educação e o equilíbrio emocional desses filhos. É notável enxergarmos que a participação masculina na criação afetiva aumentou bastante nos últimos 10 anos, pelo menos. Ou seja, os pais da atual geração participam muito mais efetivamente da vida dos filhos em detrimento dos pais de gerações passadas. Mas, é verdade que a modernidade nos trouxe novos desafios, pois a internet com os seus atrativos tem formado e educado os filhos com muito mais intensidade, eficiência e prazeres. E isso demanda um controle por parte desses pais, bem como uma exigência redobrada no processo de formação dos filhos. É evidente que não defendo a negligência quanto ao processo de educação e formação dos filhos, principalmente, diante dos novos desafios e atrativos da modernidade, como a internet. Entretanto, penso ser injusta e equivocada a responsabilização total dos pais quanto ao fenômeno do suicídio ou do "baleia azul", pois os filhos atuais são amados com o mesmo ou talvez maior cuidado que os de gerações anteriores, onde não existiam tais jogos, por exemplo.
 
O fato é que os recursos tecnológicos têm desafiado a própria questão ética de um limite para além de uma possibilidade humana. A tecnologia encanta e traz atrativos que envolvem as crianças, os adolescentes e também os adultos. Quem é mãe e pai bem sabe o que estou falando.  Os pais atuais amam seus filhos sim, dedicam-se aos seus filhos, fazem tudo o que podem e algo mais. Observo nitidamente na clínica eles me trazerem a sensação de que quanto mais fazem, mais se sentem culpados e, dessa forma, não precisa que alguém ainda venha dizer que a culpa é totalmente deles! Como se diz no senso comum: "A culpa é da mãe"! Brincadeiras à parte, os pais já carregam culpas demais diante de toda história da humanidade.  Assim, tirem os pais do banco dos réus ou ao menos sejam justos em admitir que os pais, dentro de seus limites, fazem de tudo para verem seus filhos crescerem saudáveis. 

Respondendo à pergunta que gerou o título deste artigo: não, a culpa não é dos pais!!! Num mundo onde a virtualidade se confunde com a realidade não é uma questão de culpas, mas de um novo desafio onde os pais têm que buscar novas alternativas para a competição desigual com as fascinantes ferramentas tecnológicas. 

Por: Karina Simões Moura de Moura
Instagram: @karinamourademoura

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O amor e suas palavras

Todo relacionamento deveria ter como base o amor, e é maravilhoso tê-lo e senti-lo numa relação. Porém esse sentimento não é o suficiente num relacionamento. É como se ele fosse o técnico de um jogo, mas não põe o time para jogar sozinho. Por quê? Porque o amor requer outros parceiros na relação para que o time entre em campo e saiba jogar de uma forma em que ambos ganhem. Assim, costumo dizer muito aos casais na clínica, que um casamento é mais que um jogo, e sim uma parceria a dois. Se não conseguirmos enxergar o outro ao lado como parceiro, mas sim como adversário, uma relação de disputa estará sempre estabelecida. E o que mais ensino aos casais é que a disputa entre eles é o começo do fim. Assim, não basta amar; é necessário falar sobre o ato de amar com o outro.

O silêncio da indiferença a dois é muito pior que uma briga. Engana-se quem pensa que as “DRs” (discutir a relação) servem para resolver problemas. Porque discutir problemas serve para reuniões, jogos, disputas, estratégias empresariais, etc. O que devemos aprender a executar a dois é criar um sentimento de ligação, estabelecer um vínculo afetivo para se sentir ouvido pelo outro, sentir-se amado, pedir garantias, desfazer fantasias e crenças disfuncionais.

Muitos casais se perdem com o tempo pela dificuldade em lidar com as diferenças estereotipadas entre o amor e a paixão. Sêneca, filósofo romano da escola dos estoicos, nos ensinou que devemos aprender a misturar e alternar a solidão e o encontro. A solidão nos dá o desejo do convívio social, e o encontro, o desejo de nós mesmos. Um completa a falta do outro, percebe? É assim com o amor e a paixão. O amor é uma intersecção, e a paixão constitui-se uma fusão. Ambos necessários.

Ter cuidado com as palavras no relacionamento é um passo fundamental para a longevidade afetiva saudável do casal. Pois da mesma forma que palavras afetivas constroem alicerces, algumas palavras mal colocadas e disfuncionais podem aumentar o muro da distância entre os casais quando usadas como armas de ataques com o objetivo, muitas vezes, gratuito, de apenas ferir.

Assim, lembre-se que o amor no relacionamento estará sempre ligado a três: ele (ela), o outro e a palavra. Um trio que deverá sempre ser cuidado para que não vire uma arma fatal na relação. Pois, em mais de 15 anos atendendo a casais, posso afirmar que a primeira arma utilizada no casamento quando começa a desandar, são as palavras mal usadas, que ferem, machucam, deixam marcas, muitas vezes, irrecuperáveis. Há magia nas palavras, como disse certa vez em “O Lutador” de Carlos Drummond de Andrade: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco.”

Não é quando o amor acaba que uma relação chega ao fim... Mas quando acabam as palavras entre eles! No entanto, nem todo silêncio significa falta de palavras, muitas vezes, o silêncio também é a resposta da sabedoria.
Por: Karina Simões Moura de Moura
@karinamourademoura