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A "onipresença" da mãe

Ao ouvir uma frase de uma mãe, fiquei pensativa: "depois que a gente é mãe nunca mais consegue dormir". Ela se referia a ter um sono e desligar-se completamente nos braços de Deus. Falava que dormia, mas tinha aquele sono que a fazia ligada e com o sentido voltado em seu filho. Impunha-se uma vigilância, pois a qualquer tempo ele poderia acordar e ela deveria estar de prontidão para assisti-lo, caso isso viesse a acontecer a qualquer hora da madrugada.

A ansiedade é esse constante estado de vigilância que conecta a pessoa a uma situação de alerta que consome a energia e impede um descanso necessário à saúde. Mas é muito curioso o quanto não se fala dessa situação que causa stress. As mães não se sentem à vontade para falarem dessa realidade que as consome. Talvez temam as incompreensões e sejam julgadas como desprovidas de alma ou pouco amor aos seus filhos. O fato é que muitos pais e mães precisam saber é que a dificuldade de muitos relacionamentos tem como gênesis a imposição sobre-humana que tantas mães (e muitos pais) se submetem no descuido do cuidarem-se para poder cuidar. 

Imagina o que gera de alteração de humor passar anos sem ter direito a uma noite de sono sem a preocupação de estar vigiando seu filho? Imagina o funcionamento psíquico de quem está sempre em estado de alerta? Imagina como é difícil depois de tanto tempo vivendo assim (e disso se fazer dependente) ver os filhos crescerem e, em sua autonomia, não mais aceitarem esse cuidado, que para eles passa a ter o nome de "controle". Adolescentes odeiam ser "controlados". Tantas mães são uma fábrica de ansiedade aprendida na vida.

É preciso ter muito cuidado com a dinâmica do cuidar. Santo Agostinho dizia que ninguém tropeça em montanha, mas em pequenas pedras. Estamos acostumados a pensar que muitos transtornos vêm de situações traumáticas, mas um outro caminho bem possível para o desenvolvimento de enfermidades é o estilo de vida que nos impomos no cotidiano e nas coisas que parecem simples.

Mães e pais (que cuidam) precisam descansar. Uma boa noite de sono pode render frutos de amor e tolerância bem maiores que uma noite de vigília. Tornar o filho autônomo para enfrentarem, em seus próprios quartos, a travessia de uma noite precisa ser o grande desafio dos pais.

Mães precisam dormir para continuarem sonhando com uma vida plena de amor e de cuidado... sem culpas!

Por: Karina Simões Moura de Moura
@karinamourademoura

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Suicídio de jovens: a culpa é dos pais? 

Uma polêmica tem tomado conta das redes sociais, precisamente quanto à questão do suicídio envolvendo crianças e adolescentes. A mídia tem responsabilizado o jogo "baleia azul" e o seriado da Netflix intitulado "Thirteen Reasons Why" pelo aumento de suicídio envolvendo jovens. 
 
Com o surgimento desse fenômeno, opiniões divergentes apareceram acerca da publicidade do suicídio na mídia. Os defensores falam da importância de alertar pais e adolescentes para que se evite o aumento desse quadro desolador na estatística. No entanto, por outro lado, cientistas, a própria ONU e a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) têm alertado para o perigo de que a divulgação pode sim gerar o efeito de estímulo à prática do suicídio. 
 
Foi possível se ver, igualmente, várias postagens em redes sociais responsabilizando os pais diante do fenômeno do aumento de suicídio. Afirma-se que os pais têm sido negligentes nos cuidados e acompanhamento dos seus filhos hoje em dia. Consequentemente, movido por esse desamparo afetivo, o adolescente desencadeou o uso excessivo da internet, o qual tem gerado vários transtornos psíquicos.  Será mesmo que encontramos o grande vilão responsável por tamanho adoecimento emocional familiar? Gostaria de fazer um contraponto ou um questionamento sobre o assunto. Esta geração, notadamente quanto aos pais, tem desempenhado um papel que talvez em gerações anteriores não se observava.  É difícil imaginar que há duas ou três gerações passadas pudesse se ver facilmente um pai preparando uma mamadeira, dando banhos em seus filhos ou mesmo trocando fraldas. Via-se então nas gerações passadas o pai participativo na vida emocional desses filhos e eram pais extremamente afetuosos? Pais que dividiam tarefas com as mães? Acho mesmo que precisamos refletir e julgar menos esses pais. Tal fato, hoje, não é tão incomum. Questiono as afirmações de que os pais negam mais afeto aos filhos do que em gerações anteriores. Hoje percebemos muito mais a presença desses pais tanto na participação de cuidados aos filhos quanto na presença nas atividades escolares, por exemplo. Percebo na clínica a maior preocupação desses pais com a educação e o equilíbrio emocional desses filhos. É notável enxergarmos que a participação masculina na criação afetiva aumentou bastante nos últimos 10 anos, pelo menos. Ou seja, os pais da atual geração participam muito mais efetivamente da vida dos filhos em detrimento dos pais de gerações passadas. Mas, é verdade que a modernidade nos trouxe novos desafios, pois a internet com os seus atrativos tem formado e educado os filhos com muito mais intensidade, eficiência e prazeres. E isso demanda um controle por parte desses pais, bem como uma exigência redobrada no processo de formação dos filhos. É evidente que não defendo a negligência quanto ao processo de educação e formação dos filhos, principalmente, diante dos novos desafios e atrativos da modernidade, como a internet. Entretanto, penso ser injusta e equivocada a responsabilização total dos pais quanto ao fenômeno do suicídio ou do "baleia azul", pois os filhos atuais são amados com o mesmo ou talvez maior cuidado que os de gerações anteriores, onde não existiam tais jogos, por exemplo.
 
O fato é que os recursos tecnológicos têm desafiado a própria questão ética de um limite para além de uma possibilidade humana. A tecnologia encanta e traz atrativos que envolvem as crianças, os adolescentes e também os adultos. Quem é mãe e pai bem sabe o que estou falando.  Os pais atuais amam seus filhos sim, dedicam-se aos seus filhos, fazem tudo o que podem e algo mais. Observo nitidamente na clínica eles me trazerem a sensação de que quanto mais fazem, mais se sentem culpados e, dessa forma, não precisa que alguém ainda venha dizer que a culpa é totalmente deles! Como se diz no senso comum: "A culpa é da mãe"! Brincadeiras à parte, os pais já carregam culpas demais diante de toda história da humanidade.  Assim, tirem os pais do banco dos réus ou ao menos sejam justos em admitir que os pais, dentro de seus limites, fazem de tudo para verem seus filhos crescerem saudáveis. 

Respondendo à pergunta que gerou o título deste artigo: não, a culpa não é dos pais!!! Num mundo onde a virtualidade se confunde com a realidade não é uma questão de culpas, mas de um novo desafio onde os pais têm que buscar novas alternativas para a competição desigual com as fascinantes ferramentas tecnológicas. 

Por: Karina Simões Moura de Moura
Instagram: @karinamourademoura

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Um alerta chamado DEPRESSÃO

Meu consultório é um observatório para os meus escritos e artigos. Há quase 17 anos atendendo na clínica, percebo o quanto a depressão passa despercebida ou ignorada por tantos e por uma sociedade que demonstra ainda preconceito e má compreensão com as pessoas acometidas com o diagnóstico. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) nos informa que até o ano de 2020, faz-se uma estimativa que a depressão será o segundo transtorno mais incapacitante do mundo. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu como tema para campanha deste ano, pelo dia Mundial da Saúde, que foi dia 07 de abril, a depressão como alerta à população. Um transtorno que não se escolhe idade, cor, nem fase e etapa da vida. Ela se instala e mata silenciosamente quando não é devidamente tratada e compreendida. O lema escolhido foi “Let´s talk”, ou seja, “vamos conversar”, em português, que nos remonta a pensar e refletirmos sobre uma iniciativa de estimularmos e reforçarmos que precisamos conversar sobre o assunto constantemente com a população, considerando que existem formas de prevenir e de tratar a depressão. Ou seja, se faz necessária uma conscientização como ação de prevenção com a população sobre o que é a depressão e que ela pode matar.

A depressão ou Transtorno Depressivo Maior (TDM) é um transtorno mental frequente que, de acordo com o DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico), apresenta uma incidência ao longo da vida de 20% em mulheres e 12% em homens nos Estados Unidos (EUA). Globalmente, cerca de 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem dessa doença. É triste presenciar, bem como sentir alguém em sofrimento por tal transtorno. O preconceito existente ainda é enorme, pois são pessoas mal compreendidas e rotuladas de “fracas” ou sem “força de vontade”. Costumo dizer que além do cérebro, o coração e alma da pessoa deprimida se encontram doentes. É uma estranha sensação de como se a alma chorasse, e as forças fossem perdidas para o ato de lutar, pelo eco e vazio existentes internamente nessas pessoas. Assim, muitos se autodescrevem em meu consultório, alguns regados a lágrimas e outros em sofrimento por falta delas. Uma dualidade de sentimentos entre o bem e mal, entre o querer e o não querer, entre viver e o morrer... um pouco assim, vive alguém deprimido.

Alguns sintomas são encontrados potencialmente no quadro depressivo: humor deprimido, perda do interesse ou do prazer pelas coisas da vida, sentir-se triste frequentemente ou uma sensação de vazio, perda ou ganho de peso acentuado sem estar em dieta, insônia ou sono excessivo, apetite alterado, fadiga, sentimento de inutilidade, pensamentos disfuncionais e de desvalia ou morte, dentre outros. Muitas pessoas com depressão também sofrem com sintomas como ansiedade, distúrbios do sono e de apetite e podem ter sentimentos de culpa ou baixa autoestima e falta de concentração. Encontrando-se com os sintomas citados, é preciso fazer urgentemente a procura por psicólogos e psiquiatras. 

A interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos é o resultado da depressão, ou seja, pessoas que passaram por eventos estressores (luto, perda de emprego, trauma psíquico, separação, etc.) são mais propensas a desencadear os sintomas e desenvolver o transtorno. 

Sugiro fazermos uma reflexão: olhe para o seu coração. Visualize a sua história e não se perca na compreensão de que a vida será sempre um perder e um ganhar. Saiba perceber que a cada tempo algo novo em sua vida acontece e que não será exatamente como foi pensado e imaginado. Dê fundamento à sua alegria e isto não significa deixar de ter o direito de chorar, mas não desembarcar e ficar paralisado no outono da alma. É preciso lembrar que tudo segue e assim haverá de vir nova primavera, novas cores e novas razões para sorrir. 

É tendo um sentido existencial que não ficaremos perdidos na dor. Seguiremos com as nossas marcas, mas sempre haveremos de ter a certeza de que tudo passa e conosco seguirá o que se eternizou dentro de cada um, de um novo jeito, num novo tempo.

Por: Karina Simões Moura de Moura 
Instagra: @karinamourademoura

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O amor e suas palavras

Todo relacionamento deveria ter como base o amor, e é maravilhoso tê-lo e senti-lo numa relação. Porém esse sentimento não é o suficiente num relacionamento. É como se ele fosse o técnico de um jogo, mas não põe o time para jogar sozinho. Por quê? Porque o amor requer outros parceiros na relação para que o time entre em campo e saiba jogar de uma forma em que ambos ganhem. Assim, costumo dizer muito aos casais na clínica, que um casamento é mais que um jogo, e sim uma parceria a dois. Se não conseguirmos enxergar o outro ao lado como parceiro, mas sim como adversário, uma relação de disputa estará sempre estabelecida. E o que mais ensino aos casais é que a disputa entre eles é o começo do fim. Assim, não basta amar; é necessário falar sobre o ato de amar com o outro.

O silêncio da indiferença a dois é muito pior que uma briga. Engana-se quem pensa que as “DRs” (discutir a relação) servem para resolver problemas. Porque discutir problemas serve para reuniões, jogos, disputas, estratégias empresariais, etc. O que devemos aprender a executar a dois é criar um sentimento de ligação, estabelecer um vínculo afetivo para se sentir ouvido pelo outro, sentir-se amado, pedir garantias, desfazer fantasias e crenças disfuncionais.

Muitos casais se perdem com o tempo pela dificuldade em lidar com as diferenças estereotipadas entre o amor e a paixão. Sêneca, filósofo romano da escola dos estoicos, nos ensinou que devemos aprender a misturar e alternar a solidão e o encontro. A solidão nos dá o desejo do convívio social, e o encontro, o desejo de nós mesmos. Um completa a falta do outro, percebe? É assim com o amor e a paixão. O amor é uma intersecção, e a paixão constitui-se uma fusão. Ambos necessários.

Ter cuidado com as palavras no relacionamento é um passo fundamental para a longevidade afetiva saudável do casal. Pois da mesma forma que palavras afetivas constroem alicerces, algumas palavras mal colocadas e disfuncionais podem aumentar o muro da distância entre os casais quando usadas como armas de ataques com o objetivo, muitas vezes, gratuito, de apenas ferir.

Assim, lembre-se que o amor no relacionamento estará sempre ligado a três: ele (ela), o outro e a palavra. Um trio que deverá sempre ser cuidado para que não vire uma arma fatal na relação. Pois, em mais de 15 anos atendendo a casais, posso afirmar que a primeira arma utilizada no casamento quando começa a desandar, são as palavras mal usadas, que ferem, machucam, deixam marcas, muitas vezes, irrecuperáveis. Há magia nas palavras, como disse certa vez em “O Lutador” de Carlos Drummond de Andrade: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco.”

Não é quando o amor acaba que uma relação chega ao fim... Mas quando acabam as palavras entre eles! No entanto, nem todo silêncio significa falta de palavras, muitas vezes, o silêncio também é a resposta da sabedoria.
Por: Karina Simões Moura de Moura
@karinamourademoura

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O ano começou... Que seja bem-vindo 2017!

Todo começo de ano nos revela uma série de sentimentos que ficam em ebulição dentro de nós para serem novamente vividos: a esperança, mais amor, mais afeto, mais paciência, mais gentilezas, mais tolerância.... e assim as pessoas vão "prometendo" que este será um ano diferente.

Também não são diferentes as promessas nos relacionamentos quando se inicia o ano. Os casais renovam os votos e tendem a querer tentar melhorar a vida a dois. Mas essa melhora a dois tem mesmo que ser tentada pelos dois para que um não se sinta muito pesado levando o relacionamento "nas costas", conforme escuto, com frequência, no consultório.

O relacionamento feliz é aquele no qual enxergamos sob a ótica do outro, sem que haja uma negação de si mesmo. Ou seja, consegue-se enxergar com os "óculos" do parceiro, e pedir que o parceiro enxergue com os seus "óculos" também. Sem que nenhum dos dois negue a própria realidade e os valores pessoais de cada um. Essa "troca" de visão faz com que exercitemos o processo empático no relacionamento e ajuda o parceiro a se colocar no lugar do outro.

Aprender a enxergar e a ouvir como o outro vê e escuta é um bom começo para se construir a felicidade a dois! Sempre digo muito aos casais, em atendimento, e comparo a vida a dois a uma obra de arte. Porque a vida a dois requer um aprendizado diário, uma construção eterna enquanto juntos. É um demolir e reconstruir sempre!  É um restaurar e cuidar sempre! Ou seja, o viver a dois será sempre como uma arte, porque na arte cada um enxerga e sente de uma forma própria. A arte é a subjetividade de sentimentos. É como um quadro ou uma pintura que jamais acaba ou que terá uma finitude no olhar, isto é, cada um que olha para uma obra de arte enxerga um detalhe e tem uma visão própria. Assim são os relacionamentos, em cada momento vivido acrescenta-se uma cor ou um detalhe. Porque os sentimentos vividos podem ter cores quando se ama. O amor tem a cor que você sente que tem a dois. Pinte você a cor de seu relacionamento e viva a felicidade do colorido a dois!

Por: Karina Simões Moura de Moura
@Karinamourademoura