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Qual a diferença que se pode considerar?

Não são as desigualdades que nos tornam especiais. Ter a mais ou ter a menos tem a ver com a percepção de cada um. O tema do que é normal ou anormal é profundamente discutido em centros acadêmicos. Uns dizem que normal é o que está presente na maioria e anormal na minoria. Outros dizem que a anormalidade está relacionada com o tempo, uma vez que o que antes era anormal hoje não mais o é. Há ainda os que definem a anormalidade sob o aspecto cultural, pois o que é reprovável ou negativo para um povo não é para o outro. Tudo não passa de perspectivas que se valem de lentes diferentes. Para os poetas, é normal ter a sensibilidade do olhar que enxerga a alma muito além das aparências. E na cegueira normal de muitas pessoas que pensam tudo ver de forma diferente está a trava do preconceito, o qual se fundamenta na visão distorcida de verdades morais.

Quero a cegueira do deficiente que não vê as diferenças preconceituosas. Quero a velhice dos vencidos pelo tempo que não torna impura a diferença de idades. Quero a compreensão ilimitada de quem não legitima as diferenças por circunscrição geográfica. Quero o daltonismo de quem não vê a diferença preconceituosa de cor. Quero a imperfeição dos imperfeitos para poder ser menos imperfeito do que sou.

Karina Simões (Psicóloga Clínica)
Fabiano Moura de Moura (Psicólogo Clínico)

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Microcefalia: pequeno cérebro... nenhum coração?

Culturalmente tem se falado que a figura do macho se vincula à proteção e segurança de sua prole, enquanto a figura da fêmea volta-se ao cuidado, notadamente, da espécie humana. A teoria evolucionista já fabricou inúmeros trabalhos nesse sentido. A antropologia faz uma análise dos papéis do homem e da mulher no tempo e, por seu turno, a psicologia contribui com sua leitura para a compreensão dos comportamentos humanos.

Existem estudos que pretendem uma maior compreensão sobre o término das relações conjugais diante do nascimento de um filho com deficiência. Parece ser inegável que o nível de estresse dos cuidadores sofre alteração conforme a ocorrência de uma situação de deficiência. Tornou-se visível que em situações de dificuldades o homem tende a esquivar-se da relação, diferentemente da mulher que tende a dar continuidade à conjugalidade. Lembra o filósofo Luiz Felipe Pondé, em recente comentário na TV Cultura, que em situação de prisão, por exemplo, as mulheres continuam a visitar seus companheiros fazendo filas de espera, e tal prática não acontece quando a mulher é a prisioneira e o companheiro não a visita, abandonando-a muitas vezes. Ou seja, Pondé nos lembra de que historicamente o gênero masculino teria uma dificuldade maior do que a mulher em lidar com a adversidade. Outros estudos evidenciam o abandono do lar pelo varão em situações de dificuldades, especificamente em caso de deficiência. Como se vê, a regra do abandono do lar por parte do homem que tem um filho deficiente parece estar se confirmando também com a microcefalia, de acordo com a reportagem recentemente exibida na TV mencionada. O que nos leva ao questionamento: por quê?

A dinâmica de um casal que tem um deficiente sofre profunda modificação. Os hábitos, os comportamentos e práticas passam a ter novos repertórios. A deficiência de um ente querido revela-nos certa fragilidade pela incapacidade resultante da própria limitação decorrente da anomalia. Embora necessite de maior estudo, levanto algumas hipóteses para uma compreensão do fenômeno: seria a exposição dessa fragilidade que leva o homem a abandonar o lar ou as privações de convívio social que tornam insuportável para o homem a sua permanência em seu casamento? Será que os homens sentem-se ameaçados ou trocados por sua esposa que dispensará mais tempo e dedicação ao seu filho? Sabe-se que o cuidar é papel presente no imaginário masculino diante de uma realidade cultural e, no dizer psicanalítico, uma busca de todo homem para o reencontro com sua mãe, teoricamente, cuidadora por excelência.

Em recentes pesquisas, aventou-se a possibilidade do contágio e contaminação do vírus da zica pelo sangue e saliva. Seria esta, também, uma hipótese para fundamentar o abandono masculino do lar, ou seja, estaria o homem com medo de sofrer algum prejuízo mental com a convivência com a mulher diante das poucas ou quase nenhuma informação sobre a matéria?

A discussão e o debate merecem maior atenção para que este fenômeno social possa ter seus danos minimizados. Com efeito, haverá grande sofrimento diante do que se escreve acerca do abandono no inconsciente das partes envolvidas. Para o deficiente, é muito grande a responsabilidade de sentir-se causador da separação. Para a genitora, além do desafio de criar sozinha seu filho, há o sentimento de impotência e culpa de não ser capaz de atender aos desejos de seu companheiro. Para o homem, a negação de seu dever “moral” e até social de não ter se responsabilizado pelo melhor desenvolvimento de seu filho deficiente e a falta de cumplicidade com sua companheira, a quem deixa todo o dever e compromisso com a atenção ao filho em comum.

A epidemia de microcefalia traz mais este fenômeno para o nosso meio. Mantendo-se esta estatística já validada em outros casos de deficiência, haveremos de ter um novo desafio: como evitar a ocorrência dessas separações ou como minimizar seus efeitos? Não seria o caso de se pensar em assistência psicológica gratuita na rede pública de saúde para todas as famílias em que há o registro de microcefalia decorrente do vírus da zica, e até de outros tipos de deficiências, independente de mosquitos em nossas vidas? Como garantir condições diferenciadas de assistência à mãe de deficientes, inclusive com relação à pensão alimentícia, para que uma melhor estrutura favoreça melhores condições de vida ao deficiente e à sua genitora que sozinha criará seu filho?

Ficam aqui os questionamentos como provocação ao debate. De minha parte, fica o estarrecimento diante do que um mosquito tem causado na vida de tantas pessoas mundialmente. Onde chegamos: agora, um mosquito além de definir o tamanho do cérebro, também estabelece a dimensão de um “coração”. Pelo que se vê o mosquito fez com que muita gente deixe de pensar e, o pior, deixe de amar.

Por: Karina Simões

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Texto Disponível em minha coluna UOL/mulher: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/mulher.htm

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Gravidez em tempo de vírus da zica

Não bastassem as incertezas de toda grávida quanto à saúde de seus bebês, que são comuns, a "epidemia" de microcefalia tem transformado a vida de milhares de mulheres numa angústia que parece só ter fim ao terem os filhos nascidos aos seus braços.
A ocorrência de inúmeros casos de má formação fetal transformou a vida de milhares de pessoas e de famílias. Tudo mudou. Desde a forma de se vestir, ao uso de produtos químicos, tipo de repelentes ao inseto, passando pela privação e evitação de frequentar determinados lugares públicos. Houve profunda modificação nos hábitos e comportamentos das gestantes. No consultório, tenho atendido a grávidas em estados de angústia elevada retroalimentados pelos desencontros de informações científicas e ainda a falta de conhecimento total diante do mal que bate à porta: o mosquito! O efeito psicológico disso tudo para essas mulheres e para os nascituros somente o tempo dirá. De fato, a situação de gravidez gera um sofrimento psíquico a qualquer gestante diante da real possibilidade de ser infectada pelo vírus da zica. Penso que quase a unanimidade das atuais gestantes no Brasil está atormentada pelo receio de serem infectadas. Este fato, por si só, é relevante e precisa de especial atenção das autoridades brasileiras e profissionais da saúde como um todo, uma vez que pesquisas científicas atestam que o estado psíquico da mãe gera direta interferência no feto. Cada vez mais são alarmantes os danos causados por um mosquito que veio para tirar o sossego dos brasileiros e modificar a dinâmica rotineira familiar.
Diante deste fato que aqui chamo atenção, sugiro que o sistema de saúde brasileiro possibilite a assistência psicológica por meios de atendimentos individuais e até mesmo de grupo a essas mães como forma de amenizar seus sofrimentos e evitar maiores danos aos seus bebês.
Num país onde tudo se tolera, estamos literalmente engasgados com um mosquito!

Por: Karina Simões

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Não temos o controle da vida

Começo o ano escrevendo com emoção e comoção! Meu coração ficou apertado, minha alma ficou doída e os meus olhos não resistiram derramando-se em lágrimas ao me deparar com as homenagens às pessoas que sofreram o atentado de Paris, onde estive dias atrás. Fiquei paralisada e chocada em frente de cada carta, cada foto, bandeiras, flores, velas e adereços ali pendurados tentando retratar a dor de famílias e amigos que se foram por um ato insano, brutal e irracional de desprezíveis terroristas. Chorei, rezei e me emocionei ao olhar ao redor e me deparar com inúmeras pessoas também emocionadas, assim como eu, por pessoas que nem ao menos sabemos quem são, mas sabemos, conhecemos e sentimos as suas dores! Conhecemos tais pessoas com a alma e, assim, somos ligadas pela dor. O mundo parou ao sentir essa dor, pois foi um atentado contra toda a humanidade.

Estar no local dos atentados, como estive, me deu uma sensação de fragilidade e vulnerabilidade ao mesmo tempo. Assim, pensando e olhando para aquela cena, tive a certeza de que não mantemos o controle acerca de nada, muito menos o controle da vida. Pois, ali estiveram pessoas certas de que estariam se divertindo, e de que jamais passaria em suas cabeças a possibilidade da morte iminente. Mas o final para eles foi diferente e fora do controle!
A dor e a emoção que senti ao chegar ao local são indescritíveis. Os meus olhos não me obedeciam, e lágrimas caíam sem o menor controle. E mais uma vez, a vida nos mostra... Não temos o controle de nada, nem mesmo de uma lágrima cair de nossos olhos!
De repente, no retrato de uma paisagem fúnebre assisti a uma menina ofertar, naquela praça, uma rosa de cores vivas. Tinha o vermelho aceso de suas pétalas, contrastado com o verde vibrante de folhas, que me levou a crer que no carmim de um sangue derramado, a cor da esperança existe em nós.
Eu me vi naquela criança inocente e cheia de afeto. E pude crer que no encontro com a pureza de toda história será sempre possível acreditar que tudo pode ser e será diferente... Tudo isso quando a gente nunca deixar de ter esperança e ser a criança que há dentro de nós.

Por: Karina Simões

Texto publicado em minha coluna http://www2.uol.com.br/vyaestelar/mulher.htm

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Vivemos na era da ansiedade

Vivemos em um mundo cheio de informações, uma vida célere e agitada, com uma agenda, no dia a dia, cheia de compromissos e obrigações a cumprir e, portanto, menos qualidade de vida para usufruir. Hoje em dia, nosso cérebro recebe uma enxurrada de informações e códigos mentais através das ricas tecnologias digitais que possuímos e, dessa forma, temos observado um aumento no nível de ansiedade das pessoas. Cada vez mais, recebo em meu consultório, principalmente, mulheres que relatam sofrimento com sintomas graves de ansiedade, tais como: taquicardia, sudorese, inquietação e agitação psicomotora, aumento do apetite acarretando ganho de peso, dores de cabeça frequentes, dificuldades com o sono, sensação de fôlego curto, sensação que tudo vai desmoronar, etc.

A ansiedade elevada pode levar a desenvolver um transtorno grave e, por isso, requer alguns cuidados. Algumas pessoas com transtorno de ansiedade frequentemente se sentem incapazes de trabalhar de forma eficaz, de ter vida social saudável, de viajar ou ter um relacionamento afetivo tranquilo. Ou seja, a ansiedade em forma de transtorno tem consequências impactantes sobre a vida do indivíduo. Num outro texto anterior citei os vários transtornos de ansiedade que encontramos como diagnóstico.

Um dos grandes prejuízos observados, em minha prática clínica, com mulheres em psicoterapia que sofrem de ansiedade diz respeito ao ato de comer. Geralmente, a ansiedade ativa no cérebro o mecanismo da impulsividade de comer, mesmo que sem fome. O comer compulsivo acarreta, muitas vezes, na mulher uma perda significativa da autoimagem e, consequentemente, da autoestima. O fortalecimento da autoestima feminina é um dos principais pilares de sustentação para que a mulher se sinta plena e bem consigo mesma, e, por conseguinte, ela saiba lidar com as adversidades que virão em decorrência da ansiedade.

Assim, sugiro que possamos compreender, de forma mais aprofundada, o nosso processamento cerebral. Conhecer mais a nós mesmos resultará em podermos enfrentar melhor as ansiedades que o mundo moderno nos faz viver inevitavelmente. Por isso, lembre-se que as nossas mentes são como filtros pelos quais vemos e transmitimos a realidade vivida.

Por: Karina Simões